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Autor: Lucio Costa
Faltando apenas dez minutos para o encerramento do prazo estabelecido para a entrega das propostas, um carro encostou à porta principal de um prédio modernista. Um guarda chegou a reclamar da manobra, proibida. As filhas de Lucio Costa, Maria Elisa e Helena, saíram correndo com pranchas de cartão duro debaixo do braço. Uma das folhas levava colado o traçado da cidade, na improvável forma de avião, em escala de 1/25 000, de nanquim e lápis de cor. Outras quatro cartolinas tinham, cada uma, seis páginas datilografadas, com alguns poucos desenhos, da memória descritiva do projeto. Eram 3.857 palavras que começavam com um pedido de desculpas pela "apresentação sumária".
Um funcionário da Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital, recebeu a documentação e entregou um recibo, de número 26. O que se deu do outro lado do guichê foi revelado anos depois, em 1974, em texto para a revista Manchete, por Flávio de Aquino: "Uma hora antes, Niemeyer, Sir William Holford, André Sive, Stamo Papadaki e eu fomos jantar rapidamente no restaurante Albamar. O clima era de desolação. Lamentávamos que os trabalhos até então entregues não estivessem à altura do plano urbanístico de uma grande capital".
A chegada do papelório de Lucio, mandado a um escritório da Rua da Quitanda para ser datilografado em espaço 2, impôs novo ânimo ao grupo, depois de breve decepção. Nas palavras de Aquino: "Então nos aproximamos das pranchas. (...) Ficamos desiludidos. Niemeyer sentou-se num caixote, a cabeça entre as mãos. Mas o presidente da comissão julgadora, Sir William Holford, começou a estudar as pranchas (ele lia italiano e um pouco de espanhol). De vez em quando perguntava o significado de uma palavra. De repente exclamou, entusiasmado: "Mas esta é a maior contribuição urbanística do século XX!".
Autores: Boruch Milman, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves
Avaliação dos jurados
Prós:
Muito atraente a localização das habitações na península
Densidade aproximadamente exata
Contras:
Centro comercial isolado e formalizado numa série rígida de superblocos de tamanho igual
Não utilização da parte mais elevada do terreno
Estes três arquitetos eram os mais ligados às normas do modernismo, estabelecidas pelos congressos internacionais de arquitetura moderna."Menos é mais" e "a forma segue a função" eram as regras fundamentais. Mais que o projeto vencedor de Lucio Costa, propunham nítido isolamento entre os setores administrativo, residencial e comercial.
No desenho, a Brasília dos três teria semelhante àquela estabelecida pela dupla Lúcio Costa-Oscar Niemeyer. No lugar da "asa" brotava um "L" a acompanhar o Lago Paranoá. Havia a premonitória indicação de residências na beira da água, tal como se vê hoje nas mansões do Lago Sul.

Projeto 1
Autores: Rino Levi, Roberto Cerqueira César, L.R. Carvalho Franco e Paulo Fragoso
Projeto 2
Autores: Marcelo e Maurício Roberto, do escritório M.M.M. Roberto
Dois projetos ficaram empatados na terceira posição.
Projeto 1
Avaliação dos jurados
Prós:
Boa aparência
Boa orientação
Contras:
Do ponto de vista plástico, são os edifícios de apartamentos que dão feição à capital – não os edifícios governamentais
Altura desnecessária
Resistência aos ventos
Para Brasília, o arquiteto-celebridade Rino Levi imaginou torres gigantes, de 75 a oitenta andares, com 300 metros de altura, 400 de largura e 18 de profundidade – pouco menores, portanto, que a Torre Eiffel. Seriam bairros verticais, superblocos a arranhar o céu. Alguns pavimentos, entre os andares, funcionariam como ruas, com serviços e comércio.
Para fazer a interligação de tudo, existiriam elevadores de dois tipos: os grandes, que levariam às avenidas; e os menores, para transportar as pessoas para casa. Os jurados ficaram impressionados, mas desistiram, ante a impossibilidade de construção dessa cidade futurista no prazo político de três anos estabelecido por JK.
Os próprios autores, no memorial descritivo do projeto, reconheceram: "Talvez esta seja a cidade do século XXI e os homens que a projetaram e a calcularam já estejam com seus passos trilhando as vias super-rápidas do ano 2000 para diante."
Projeto 2
Avaliação dos jurados
Prós:
O programa para construção e financiamento é prático e realista
O estudo sobre a utilização da terra é o melhor e mais completo do concurso
Contras
Válido para qualquer cidade numa região plana; não é especial para Brasília
Não é o plano para uma capital nacional
A ideia de MMM Roberto era fazer uma capital com caráter de interior. Para isso, sete imensos quiosques de unidades urbanas abrigando, cada um, 72 mil moradores. No centro de cada unidade, haveria um setor governamental.
O projeto é pivô de uma confusão em Paragominas, no Pará, à margem da Belém-Brasília. Houve uma involuntária troca de autoria por parte de Jofre Mozart Parada, geólogo muito próximo a JK. Parada presentou o fundador da cidade de Paragominas com o projeto de M.M.M. Roberto dizendo ser de Lucio Costa.
Os documentos oficiais do município informam que o traço urbano é de uma planta de Lucio Costa, "a qual havia concorrido, junto a outras, para o projeto de construção de Brasília, classificando-se assim em quarto lugar".
A falsa informação é repetida na justificativa do projeto de lei no 554, de 2007, que tramita no Congresso, para a criação de uma zona de exportação em Paragominas. Pode-se constatar a semelhança dos croquis de 1957 com o traçado de Paragominas por meio do Google Earth.
Fonte: Revista Veja Edição Especial Brasília 50 anos.
Para saber um pouco mais de história, acesse o Arquivo Público.